Ushahidi: uma tecnologia para mapear demandas humanitárias

Ushahidi: uma tecnologia para mapear demandas humanitárias

Ushahidi é uma plataforma especializada no mapeamento de informações coletadas por meio de cidadãos em situações de demandas humanitárias. Desenvolvida em 2008 para mapear a violência após as eleições no Quênia, a plataforma ganhou  popularidade e atualmente é utilizada em vários cenários de vulnerabilidade em todo o mundo.

Conheci essa plataforma em 2008, desde então penso nas possibilidades de uso pelo Governo brasileiro, que poderia tirar proveito da conectividade de dispositivos e cidadãos para mapear desde carências em escolas até a violência nos centros urbanos, bem como qualquer outro tipo de violação à dignidade humana. A visualização de dados em tempo real possibilitaria a mobilização e repostas mais ágeis do Poder Público para as questões sociais que dependem da intervenção estatal.

O imperativo econômico e a crise do modelo de educação atual

Palestrantes do Fórum Econômico Mundial foram unânimes quanto à necessidade de mudança urgente nos rumos da educação. ( The future of education, according to experts at Davos). Para educadores, este discurso não é novidade muito menos recente. Agora, porém, ele começa a ganhar credibilidade e senso de urgência na sociedade, uma vez que emerge do meio econômico.

Até 2030, segundo a consultoria Mckinsey, 60% das ocupações poderão ter 30% das atividades automatizadas com o uso de robôs e da inteligência artificial. O impacto será maior nas profissões em que predominam as tarefas mecânicas e previsíveis.

Nesse novo cenário são valorizadas as ditas soft skills, ou seja, a criatividade, a colaboração, o letramento informacional entre outras, daí a importância das metodologias ativas na educação, pois elas estariam aptas a superar o paradigma da educação industrial.

O atual modelo de educação foi pensado para atender às necessidades da fábrica, ou seja, da sociedade industrial. Heide e Alvin Tofler, ao comentarem as origens do sistema norte-americano de ensino, que segundo eles não difere em sua essência daqueles praticados largamente em outros países, lembram que suas raízes culturais estão no século XIX, no momento em que as fábricas precisavam de trabalhadores disciplinados para suas linhas de montagem. Por determinação dos industriais da época, uma premissa necessária ao sistema público de educação norte-americano deveria ser a “disciplina industrial”. Por disciplina industrial, entende-se horários rígidos, todos devem chegar no mesmo horário, fazer o mesmo trabalho repetida vezes e de forma mecânica, cabendo ao professor o papel de patrão.

Pois bem, esse modelo inventado no século XIX não faz mais o menor sentido na Sociedade do Conhecimento. A revolução tecnológica iniciada nos anos 50 alterou a dinâmica social e econômica, tanto quanto a cognição e a subjetividade dos indivíduos.

Há um descompasso constrangedor entre a escola e a cultura, que agora começa a impactar os interesses do capital. Como disse Bill Gates, o atual sistema educacional não pode ser mais reformulado, ele precisa ser substituído.

Apesar do atraso a escola irá mudar, não por uma crise de consciência de suas práticas retrógradas, e sim por uma imposição econômica e tecnológica.

O futuro do trabalho em 2030

O relatório Jobs lost, jobs gained: What the future of work will mean for jobs, skills, and wages, da Mckinsey Global Institute, analisa o futuro do trabalho no ano de 2030, ou seja, daqui a 12 anos.

Na visão dos especialistas,  60% das ocupações poderão ter 30% das atividades automatizadas até 2030.  A automação aqui diz respeito ao uso de inteligência artificial e robôs na execução de atividades humanas.  A extensão do impacto dessas tecnologias nos postos de trabalho dependerá do seu ritmo de desenvolvimento e adoção.  As atividades mais impactadas serão aquelas de ordem física e de resultados previsíveis.

Nesse cenário, um dos desafios postos de imediato é requalificação da força de trabalho, já que estamos falando de cerca de 375 milhões de trabalhadores que necessitarão mudar de categoria profissional e aprender novas habilidades, o que irá exigir mais esforços dos sistemas de educação já sobrecarregados.  (Em outro post, falarei da importância da educação a distância nesse contexto). 

L’homme gagne, l’homme perde, diria Michele Serres, uma vez que, por um lado, assistiremos o declínio de muitos postos de trabalho, do outro, veremos o surgimento de novas ocupações e o incremento de postos de trabalho já consagrados. No quadro geral, não se trata de uma aniquilação, e sim de uma reconfiguração do trabalho.

O relatório pode ser lido na íntegra no site da Mckinsey.

Elementos para uma pedagogia da inteligência coletiva

Os achados da pesquisa liderada por Anita W. Woolley [1]  são fundamentais para entendermos a inteligência coletiva -IC em grupos humanos. Em suma, o trabalho de sua equipe comprovou a existência de um fator de inteligência coletiva, o que permitiria predizer a capacidade que um grupo teria para realizar determinada tarefa. Nesta entrevista, ela explica os elementos presentes em um grupo que atuam como facilitadores da inteligência coletiva, os quais resumo em seguida.

Cabe destacar que, como destacou Anita W. , a inteligência individual não tem uma forte ligação com o fator de inteligência coletiva.

Os facilitadores da inteligência coletiva em grupos humanos que foram identificados por Woolley e sua equipe são:

1-  Sensibilidade social (relacionada à inteligência social) – capacidade dos indivíduos perceberem as emoções uns dos outros é um fator positivo para a IC;

2 – Presença feminina – mulheres tornam os grupos mais inteligentes (as mulheres tendem a ter uma inteligência social mais elevada do que os homens);

3 – Comunicação – A distribuição da comunicação no grupo (inclusive não verbal) é outro aspecto que também afeta positivamente a inteligência coletiva.

A pesquisa de Anita W. Woolley pode trazer contribuições relevantes para rompermos com a pedagogia focada na inteligência individual, da qual a educação, via de regra, ainda não conseguiu se desvencilhar.

Apoiados nessas descobertas, podemos sugerir que uma pedagogia da inteligência coletiva deveria valorizar  estratégias que fomentassem a diversidade de gêneros nos grupos de trabalho, a distribuição da comunicação verbal e não verbal e a percepção e empatia (ligados à inteligência social)

[1] Evidence for a Collective Intelligence Factor in the Performance of Human Groups. Disponível em: http://www.wjh.harvard.edu/~cfc/Woolley2010a.pdf

Ensino Adaptativo: a vez da Inteligência Coletiva nos Sistemas de Gerenciamento de Aprendizagem

Em 2010, quando ainda não se falava em Ensino Adaptativo, pelo menos não era de meu conhecimento, em minha dissertação de mestrado eu já havia atentado para a necessidade de aperfeiçoamento dos Sistemas de Gerenciamento de Aprendizagem (LMS) no que se refere à Inteligência Coletiva Plena (ICP), ou seja, que os sistemas fossem capazes de aproveitar simultaneamente a Inteligência Coletiva Inconsciente (ICI) e Inteligência Coletiva Consciente (ICC) em prol do aprendizado.

3 tipos de inteligencia coletiva
Naquela época, disse:

“Infelizmente, os atuais sistemas de gerenciamento da aprendizagem são limitados com relação ao aproveitamento da interação reativa a favor da inteligência coletiva (inconsciente). Caso fossem adaptados para a IC, poderiam informar aos alunos, com bases nos dados coletados de todos os participantes de um curso, quais foram os conteúdos mais acessados, quais alunos mais contribuíram para o fórum (as pessoas colaboram também por glória), sugerir conteúdos (se você se interessou por esse conteúdo, pode também se interessar por esses), informar fontes adicionais de pesquisa na internet, dentre outras possibilidades.”

Os atuais Sistemas de Gerenciamento de Aprendizagem, como por exemplo o Moodle, possuem excelentes recursos técnicos de suporte a metodologias de aprendizado baseadas na inteligência coletiva consciente, como fórum, wiki, blog, social bookmark, bibliotecas colaborativas etc. No entanto, são extremamente pobres quando se trata do aproveitamento da inteligência coletiva produto dos rastros das interações de alunos e professores com os diversos elementos técnicos e humanos que constituem um ambiente virtual de aprendizagem.

 

declara

DECLARA: ambiente de Ensino Adaptativo

As novas plataformas de Ensino Adaptativo, como por exemplo o Declara, são tipicamente sistemas de inteligência coletiva plena, ou seja, são ambientes que se aproveitam tanto da inteligência coletiva consciente quanto inconsciente.

Em suma, o que esses novos sistemas se propõem a fazer é analisar a grande quantidade de dados (big data) gerada a partir das interações de alunos e professores na plataforma para, em diferentes contextos, retornar informações customizadas que irão ajudá-los no processo de construção do conhecimento.

A inteligência coletiva inconsciente, associada aos conceitos de learning analytics, big data e web semântica, não precisa se limitar apenas à interação tipo aluno-conteúdo,  deve, também, influenciar nas interações aluno-professor e aluno-aluno. Como esclarece a matéria publicada no Povir sobre ferramenta de Ensino Adaptativo Declara,  “Na plataforma, as ferramentas de buscas inteligentes ajudam a melhorar a interação entre usuários. No caso de ser usado por uma escola, o sistema entende, por exemplo, que um aluno com determinada dificuldade deveria conversar com um professor específico para tirar suas dúvidas.”

A emergência da inteligência coletiva em ambientes de aprendizagem on-line e híbridos depende de uma série de fatores, os quais estou mapeando e chamo de operadores pedagógicos da inteligência coletiva, que precisam estar ajustados coerentemente e não de forma concorrente. Trata-se de um intricado jogo de elementos técnicos, metodológicos e sociais.

No que se refere à dimensão técnica, as novas tecnologias de Ensino Adaptativo ampliam as possibilidades de emergência da Inteligência Coletiva, podendo ser bastante úteis em ambientes de aprendizagem que operam em escala planetária, como no caso dos atuais  MOOCs, mas serão igualmente valiosas em cursos baseados em pequenas comunidades de aprendizagem.

Veja também a matéria publicada no site Povir:  Plataforma propõe avanço ao ensino adaptativo